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Roberta Schioppa é artista plástica e bacharel em Artes Plásticas pela Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), em 2013. Vive e trabalha entre Itatiba e São Paulo. E vem se debruçando na investigação de diferentes matérias e suportes em sua prática com a pintura, a escultura, o desenho e na produção de objetos e instalações e experimentações teatrais.

Exercícios de subjetividade e narrativas no ateliê

 

“Uma tal liberdade de meios", nos diz Hélio Oiticica, em suas páginas sobre o Programa Ambiental, ao qual se dedicava na década de 1960, ousando derrubar as fronteiras entre as modalidades poéticas. A fluidez entre palavra, luz, pintura, cor, ação era para o artista a manifestação de sua posição ética, de seus critérios de criação, de seu engajamento político e dos caminhos de experimentação artística que havia escolhido. Estamos, tanto tempo depois de Hélio e graças ao artista, em um contexto onde a arte pode ser entendida como uma atitude de criação. Mesmo não se tratando de uma afirmação de um lugar único e predeterminado para o sujeito artista, podemos pensá-la como a constituição incansável de um espaço aberto à criação do sujeito que cria, assim mesmo, tautologicamente: o sujeito se cria, enquanto cria. E quando cria, vê-se e percebe-se sujeito em criação, e aquilo que cria o encara de volta, como uma inscrição indissociável entre sujeito, mundo e seu trabalho.

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É nesse campo de hibridismos e de jogos de espelhamento que proponho pensarmos o fazer de Roberta Schioppa. Nessa ebulição de gestos está a sua morada, onde as negociações com as linguagens, com os materiais, com o mundo movem-se, sem se estabilizar, onde experiências íntimas ganham tradução plástica, onde questões relacionadas a gênero pedem passagem e inauguram gestos de criar. Avistamos sua paisagem de produção como uma espécie de ânsia inventiva que reúne muitas linguagens e que encontra no mundo, onde o eu está em expansão, os seus sentidos. E, assim, entendamos por seus gestos: a sombra de uma intenção anterior que paira sobre o processo, os rastros que não precisam necessariamente se comprovar, mas que seguem transformando-se no fazer, ações que têm um tempo próprio para que a decisão por determinadas visualidades aconteça.

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Formada em Artes Plásticas, Roberta Schioppa atravessa a pintura, o desenho, a escultura e o livro de artista. Suas cores aparecem úmidas no papel, na tela, na página do caderno. Têm texturas que deixam transparecer os gestos de pintar. Matizes vibram, movem-se como se quisessem guardar o movimento da mão que os mobilizou ali.

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Zonas de cor fogem do contorno e avançam na estruturação de um ambiente cromático, ora na definição de uma forma que tende mais à abstração, ora colocando-nos diante de uma espécie de caligrafia-desenho. Em outros trabalhos, a linha estrutura espaços, é fenda, é relevo também. Já na escultura, essa mesma movência ganha peso, volume, sombra própria: a matéria parece tentar resistir, como que afirmando seu tempo de pausa momentânea.

 

Essas famílias de trabalhos de Roberta se alimentam umas às outras, tecem fios que interconectam suas linguagens e materiais. Por exemplo, a composição caligráfica dos desenhos-pinturas, como nos trabalhos Onda azul (2026) e Fluxos (2018), nos joga para uma questão estrutural que se constitui nas esculturas mais recentes. Ao mesmo tempo, essa expressão que soa desinteressada – pois é bastante experimental, em alguns desenhos de pequeno formato e também nos de grande formato – parece dialogar com algumas palavras que se deixam escapar nas páginas de seus cadernos. Alguns dos trabalhos mais densos, como as pinturas em que Roberta preenche o suporte quase que por completo com cores, como nas séries Esferas ovas (2022) e no trabalho Caronte (2026), parecem derivar das organizações espaciais percebidas nas páginas dos cadernos. E os pequenos desenhos, esses são seres, partes de corpos, fragmentos de tempos em imagens? Mudar de suporte, de material e de linguagem parece jogar Roberta num rodopio de combinações de fazeres que contribui para uma sempre nova forma de pensar e lidar com as variáveis do trabalho em questão. Isso não quer dizer que um projeto se estabeleça ou uma relação seja premeditada, mas sim que a artista se desafia pelos modos como seu corpo pode reagir diante dos contextos em que os materiais e técnicas pedem para ser reconfigurados poeticamente.

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O que acontece quando um traço passeia pela superfície intacta do papel? Para Roberta Schioppa, esse gesto inaugural convoca sempre um movimento seguinte que segue adiante, num encadeamento de concessões, desejos e intervenções em que desenho e pintura se interferem como gestos irmãos. “Não é possível tirar nada, pela subtração, mas pela adição de um risco, em ambos os sentidos, pode-se reconfigurar um espaço, uma superfície”, diz a artista.

 

O desenho funciona, em seu percurso, como um exercício de organização mental – uma forma de assimilar, orgânica e experimentalmente, emoções, experiências e pensamentos, e também de reencontrar a memória de fatos vivenciados e guardados no corpo e com o corpo. “Eu aprendo enquanto desenho, e aprendo enquanto pinto”, conta a artista. Esse aprender, como procedimento, no processo de Roberta diz respeito a estar diante de suas escolhas em relação ao suporte e aos materiais disponíveis, e também aos modos que a artista vai constituindo para deslocar essas memórias para o campo plástico. A construção de seus ambientes cromáticos vai se dando por uma cadeia de gestos: preencher o suporte com cor, traçar linhas, envolver um todo com massas cromáticas em que ideias de composição, sombras e pesos vão se tornando um conjunto de operações de construção pelo olhar.

 

O ateliê de Roberta é, a um só tempo, lugar de produção e de arquivo. Materiais, procedimentos e cores permanecem sempre disponíveis e acumulados ao longo de seus quatorze anos de percurso artístico. Está tudo ali, para retornar, para ser revisto e entrar em novas e outras testagens que, por vezes, esgarçam práticas já experimentadas. A cera de abelha é um exemplo disso: surgiu em 2017 como diluente para tintas a óleo, para conferir opacidade e mais corpo à matéria, e também como material para as esculturas. De lá para cá, a cera foi sendo incorporada aos desenhos. oberta mergulha o papel em cera líquida e um bloco de cor com o pigmento vai sendo diretamente incorporado. Nos procedimentos escultóricos, explica a artista, a cera instiga a um novo olhar sobre o espaço e pode servir de encadeamento para um novo trabalho ou pesquisa. Materiais e cores, mais do que qualquer programa prévio, guiam esse retorno, conta Roberta.

 

Foi o desejo de moldar e torcer o espaço para além do bidimensional que conduziu Roberta, mais recentemente, a um processo escultórico.  Partindo do desenho e de procedimentos da pintura, a artista passou a torcer fios de latão e cobre, depois de aprender técnicas de joalheria — corte, solda, rebite de chapas – com as quais construiu objetos arquitetônicos de base rígida e pesada. Dessa base, moveu-se para fios muito finos, torcendo e moldando pequenos seres em pequena escala, em busca de um equilíbrio que apresentasse “a força na leveza”. Desses gestos de torção, a artista seguiu para um encontro com o desenho no papel, ou para revestir o fio de latão com cerâmica e fundição em bronze. Ela conta que na escultura sua predileção é por “um tipo de desenho no espaço, um ajuste de leveza e torção que tem o poder de transformar o espaço ao redor”. Com as esculturas, Roberta diz buscar “suspender o espaço”, trabalhando com dimensões, pesos e movimentos.

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Enquanto as esculturas se abrem para modificar a forma como se pode encarar o espaço, diferentemente, as obras bidimensionais se encerram em si mesmas em sérias longas de experimentação. Há processos de Roberta que pedem para ser prolongados ou aprofundados no gesto – pelo uso repetitivo de uma cartela de cores, por uma forma de ocupar o espaço do suporte, por uma construção pictórica que se prolonga e vai se desdobrando em gestos. É assim que nascem muitas de suas séries: sem um número de trabalhos definido de antemão, mas com uma modulação de forças que se encadeia de um gesto ao seguinte, até que a repetição ou insistência em algo deixe de fazer sentido e como que pertencendo a um circuito complete um ciclo. Nos trabalhos únicos, ao contrário, a intenção se completa nela mesma, intensamente em sua unicidade.

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Mirando todos esses fazeres e modos de lidar com as materialidades, podemos conectar os processos de Roberta com um percurso em que gestos conversam

com a resistência e a natureza das matérias, em que mãos e corpo, ao invés de

se adaptarem, ousam modificar-se diante destas.

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Texto por Galciani Neves

Exposições

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2024

Matiz em movimento, Roberta Schioppa e João Sonec

Casa Lebre, Bragança Paulista

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2023

"... todo verde é transparente, e treme ao vento", Alexandre Furcolin, Eduardo Antônio, Isadora Almeida, Heron P. Nogueira, Paulo Lobo, Ricardo Bueno, Rodrigo Cruz e Roberta Schioppa, curadoria por Renato Rios

São Ateliê, São Paulo

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2022

Festa da Firma, André Sztutman, Clara Letizia, Gabriel Botta, Giovanna Langone, Hiram Latorre, Luiza Caramez, Manoela Moura, Manuella Silveira, Paula Maria, Paulo Lobo e Roberta Schioppa curadoria por Rodrigo Villela

São Ateliê, São Paulo

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2014

Museu de Arte Brasileira Centro, São Paulo

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2013

BR-Arte 2013, Casa da Xiclet, São Paulo

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2012

Não seja Bienal, não seja marginal, Casa da Xiclet, São Paulo

Casa Phosphorus, São Paulo

Mami, Casa da Xiclet, São Paulo 

44a Anual de Artes, FAAP - Fundação Armando Álvares Penteado, São Paulo

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Prêmios

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2012

44a Anual de Artes, FAAP - Fundação Armando Álvares Penteado, São Paulo

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Coleções Institucionais

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Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro

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Formação

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2013

Bacharelado em artes plásticas, FAAP - Faculdade Armando Álvares Penteado

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Cursos

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2022-2023

Acompanhamento artístico com Thiago Honório e Ana Paula Cohen

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2020

O Livro Vermelho e os Livros Negros de Carl Gustav Jung, PUC-SP, São Paulo

Habitar Espiritualmente a Complexidade do Real, PUC-SP, São Paulo

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2016

Acompanhamento artístico com Paulo Miyada e Pedro França, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo

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2014

Filosofia com Peter Pál Pelbart, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo

Oficina com Bené Fonteles, Festival de Arte da Serrinha, Bragança Paulista

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2013

Pintura com Paulo Pasta, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo

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2012

Oficina de Caderno de artista com Bené Fonteles, Festival de Arte da Serrinha, Bragança Paulista

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2011

Oficina de desenho com Dudi Maia Rosa, Festival de Arte da Serrinha, Bragança Paulista

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Experiências Profissionais

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2017-2024

Integrou e geriu o Ateliê São, ateliê coletivo no Cambuci, São Paulo

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2020

Os Insensatos, Teatro do Conteiner, São Paulo

Guerra em Iperoig, Teatro Oi Rio, Rio de Janeiro

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2016-2019

No teatro trabalhou como assistente de direção na Mundana Companhia, com apresentações da peça Máquinas do Mundo no Teatro Oficina 2017, Sesc Pinheiros 2018, FLIP 2019

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2016

Assistência para o artista Nuno Ramos

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2015-2016

Assistência para o artista Laura Vinci

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2015

Assistência para o artista Marcelo Cipis

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2014

Assistência para o artista Runo Lagomarsino

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2010-2012

Integrou e geriu o Atelieta, ateliê coletivo do Pacaembu, São Paulo

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